De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), dois em cada dez brasileiros sofrem com  algum tipo de transtorno mental. E os mais prevalentes são os transtornos de ansiedade e a depressão. Da mesma forma, no ambiente corporativo, estes percentuais não são diferentes. Em função da falta de qualidade de vida no trabalho, estima-se que 20% dos funcionários ativos estejam trabalhando sobre forte pressão emocional, comprometendo a saúde física e psíquica. Isso resulta em prejuízos relacionados à queda na produtividade, absenteísmo e turn over elevado.

Para muitos de nós, o trabalho é uma parte importante de nossas vidas. É onde passamos muito do nosso tempo, onde obtemos nossa renda e, muitas vezes, onde fazemos nossos amigos. Fazer uma atividade gratificante é bom para a qualidade de vida no trabalho, para a saúde mental e bem-estar geral.

qualidade de vida no trabalho

Qualidade de vida no trabalho e a produtividade

Todos temos momentos em que a vida fica em cima de nós. Às vezes, isso é relacionado ao estresse e pressão no trabalho, como prazos ou grandes desafios. Às vezes, está relacionado a outras coisas, como nossos relacionamentos ou circunstâncias sociais.

Assim, um ambiente de trabalho tóxico pode ser corrosivo para a saúde de qualquer colaborador.  Afinal, equilíbrio emocional  e gestão eficiente andam de mãos dadas. Aliás, há fortes evidências de que locais de trabalho com altos níveis de bem-estar mental são mais produtivos.

O trabalho como vida

A qualidade de vida no trabalho nos oferece muitos benefícios para  como indivíduos. A partir do trabalho desenvolvemos aspectos psicológicos, emocionais, cognitivos e sociais.

O que costuma-se ouvir por aí é que trabalhamos para viver. Ou seja, que o trabalho é aquilo que fazemos como obrigação para podermos construir uma vida plena, satisfatória. Entretanto, não é possível nem aconselhável separar o trabalho da vida. Dietmar Kamper discute em O Trabalho como Vida essa relação danosa que geramos ao distanciarmos o trabalho do lazer, do jogo, do culto, da vida.

Acreditamos que o trabalho se expande como erva daninha e toma conta da vida. Até porque todos estão tremendamente ocupados com o trabalho e, por consequência disso, não vivem. Segundo Kamper, o trabalho tende a ser desmedido e a vida tende a se tornar desamparada.

Supervalorização

A mesma sociedade que colocou o trabalho em um pedestal, valorizando-o como sentido da vida, agora o detesta e reprime. Ao mesmo tempo que não consegue abandoná-lo e não consegue incorporá-lo à vida. Mas, ele está presente em todas as esferas dela, no lazer e no amor. A vida também pode ser dura e o trabalho também pode ser prazeroso.

Diante disso, o trabalho que fazemos não precisa ser entendido como aquilo que dignifica a vida, mas como uma das variantes que dá a ela sentido. Precisamos aprender a medir esse trabalho, sem dissociá-lo da vida e garantir a qualidade de vida no trabalho.

Em 2017, um número de figuras famosas falaram francamente sobre suas experiências de saúde mental relacionadas com o trabalho. O príncipe Harry falou sobre ansiedade e os ataques de pânico que sofreu após a morte súbita de sua mãe. O ex-jogador de críquete Freddie Flintoff e o rapper Professor Green também se abriram sobre suas emoções.

Já temos experiências de uma vida onde o trabalho também pode funcionar em um ritmo flutuante. É possível que as pessoas cheguem para trabalhar em horários diferentes, trabalhem efetivamente por mais tempo e saiam mais cedo. Aliás, existem empresas que estimulam os funcionários a exercerem o ofício com propósito, que impulsionam capacidades de expressão pessoal. Isso tem funcionado de alguma forma, ainda em construção, assim como outras atitudes de profissionais e empresas.

Não varra os problemas para baixo do tapete

Especialmente em grandes empresas, com uma carga de trabalho de 8h horas diárias, é muito comum que problemas de saúde física e mental surjam a partir da sobrecarga de atividades. Dentro das equipes, é possível notar quem está desgastado, realizando as tarefas com menor qualidade e mais urgência. Soa como um grito de desespero para chegar ao fim e sentir o alívio do peso saindo das costas.

São nesses momentos de grandes projetos ou quando se nota alguma reação de burnout que o apoio deve surgir ainda mais forte. Não adianta varrer os problemas para debaixo do tapete: uma equipe desgastada não poderá fazer muito pela sua empresa.

É importante que os funcionários se sintam seguros em compartilhar problemas de ordem emocional relacionados à situações do trabalho. Até porque pessoas com transtornos mentais já terão naturalmente a dificuldade de pedir ajuda. Pode ser por se sentirem envergonhadas ou não admitirem que precisam do suporte que poderia ser oferecido. Assim, para incentivar essa fala e fornecer o auxílio adequado, algumas atitudes podem ser tomadas.

1. Invista em benefícios de saúde mental

Primeiramente, cuidar preventivamente da saúde emocional da equipe é um dos grandes desafios das organizações atuais. Afinal, os custos com licenças, afastamentos e desligamentos já chegam à casa dos bilhões. No Brasil, somente os afastamentos por ansiedade custaram R$1,3 bilhão em 2016 à Secretaria da Previdência. Os gastos relacionados a quadros de transtornos mentais custarão à economia mundial U$6 trilhões até 2030, de acordo com o Fórum Econômico Mundial.

Não se trata apenas de investir em um novo benefício corporativo, mas sim, proteger o investimento feito em pessoas e capital intelectual ao longo de anos. Na maioria das vezes, questões relacionadas à saúde psíquica começam a aparecer após anos de trabalho.

Em geral, a prevalência aumenta em cargos e posições de maiores responsabilidades, com a redução dos tempos para tomadas de decisão e maior pressão por resultados. Afetando, dessa forma, colaboradores de confiança e de grande valor para a companhia, cujo afastamento ou perda, por vezes, pode ser incalculável.

Ainda de acordo com a OMS, para cada U$1,00 investido na saúde mental dos colaboradores, U$4 são retornados para a organização em produtividade e capacidade de trabalho.

Por isso, programas como o Vittude Corporate, direcionado para empresas, tem por objetivo levar mais saúde emocional para o ambiente corporativo. Através dele, empregadores podem incentivar seus colaboradores a cuidar preventivamente do equilíbrio psíquico, ampliando o autoconhecimento, motivação e a felicidade no trabalho.

2. Faça mudanças no ambiente de trabalho

Os locais de trabalho precisam se tornar amigos da saúde mental. Isso ajuda mais pessoas a se sentirem à vontade em falar quando tiverem um problema de saúde. É importante que os próprios empregadores compreendam suas responsabilidades de acordo com a lei, além de outras medidas que podem ser tomadas para obter o melhor de uma força de trabalho diversificada.

Criar um ambiente transparente, flexível, com uma boa convivência e aberto para discussão é um grande auxílio nesse sentido. Além disso, realizar campanhas e inserir políticas formais de saúde mental é fundamental. Esse tipo de discurso influencia para que ninguém seja estigmatizado quando estiver passando por situações difíceis.

3. Incentive sua equipe a não levar trabalho para casa

Um dos maiores problemas enfrentados pelos funcionários em relação ao seu bem-estar mental é a incapacidade de se desligar após o trabalho. Com os smartphones continuamente apitando notificações por e-mail isso fica ainda mais difícil.

Administrar a grande flexibilidade e as novas oportunidades que a tecnologia nos proporciona também é importante. Afinal, garante que tenhamos tempo para sair do trabalho e manter um bom equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Ambos são importantes em termos de bem-estar.

Saber quando é demais é crucial. Certificar-se de que seus funcionários possuem uma rede de apoio fora do trabalho e mantém um equilíbrio adequado entre trabalho e vida é necessário. Incentive conversas honestas com cada um deles sobre a situação de saúde mental com um profissional responsável. Ter limites saudáveis ​​no trabalho, saber quando está ficando demais e poder criar espaço para si é crucial para uma boa qualidade de vida no trabalho.

3. Seja flexível com programas de qualidade de vida no trabalho

Seja um defensor da qualidade de vida no trabalho. A consciência da saúde mental está aumentando. Entretanto, ainda enfrentamos um mundo onde as pessoas com problemas de saúde mental passam por discriminação e podem enfrentar desafios para obter a ajuda de que precisam. Muitas pessoas que passam por dificuldades tentam manter seus sentimentos ocultos porque têm medo das respostas das outras pessoas.

Quando criamos projetos no local de trabalho onde as pessoas podem ser elas mesmas, é mais fácil para as pessoas falarem sobre questões sem medo. Existe uma ampla gama de direitos legais que protegem nossa saúde mental no trabalho. Estes variam desde direitos humanos básicos, como o direito à liberdade de expressão e liberdade de associação, até a legislação de saúde e segurança que nos mantém protegidos contra riscos, incluindo riscos psicológicos.

Uma pessoa com transtornos mentais tem o direito de solicitar ajustes razoáveis em seu trabalho. O ajuste tem como objetivo remover a barreira para realização do trabalho, reduzindo os efeitos e sintomas físicos do estresse.

Exemplos de ajustes razoáveis são:

  • Alterar o padrão de trabalho de uma pessoa para permitir que ela comece mais tarde ou termine mais cedo por causa de efeitos colaterais da medicação ou sintomas;
  • Fornecer equipamentos e acesso remoto, com permissão para trabalhar em casa em dias determinados ou de forma flexível de acordo com a gravidade dos sintomas;
  • Não obrigar a participação em funções de trabalho sociais ou eventos que agravam os sintomas, permitindo estabelecer arranjos alternativos que obtenham retornos comerciais semelhantes.

4. Crie um ambiente de colaboração

A maioria das pessoas que desenvolvem problemas de saúde mental se recuperam bem, se tiverem o apoio correto das pessoas em suas vidas. Para algumas pessoas, um episódio de mal-estar mental é pontual, desencadeado por eventos. Para outros, os sintomas podem ser de longo prazo ou episódicos ao longo da vida. A recuperação não é a mesma coisa que a cura, muitas vezes as pessoas aprendem a viver com determinados diagnósticos, como o transtorno bipolar.

Apoiar um colega que tem um problema de saúde mental é ajudá-lo a encontrar maneiras de se recuperar, ajudando-o a ficar bem e a garantir que o local de trabalho seja um lugar seguro e agradável, livre de discriminação.

Mudanças

Como com muitas outras condições de saúde a longo prazo, as pessoas podem precisar fazer mudanças a longo prazo ou permanentes em suas vidas e empregos para gerenciar essas mudanças. Os colegas de trabalho podem precisar fornecer esse apoio em uma base contínua.

Crie um ambiente em que exista a oportunidade de discutir sobre seus desafios em sessões de supervisão. Ofereça um mentor, coach ou apenas um apoio amigável em uma base contínua para pessoas com dificuldade. Mais importante: pergunte se há algo que você possa fazer para ajudar uma pessoa a gerenciar suas emoções.

Lembre-se um dos ativos mais preciosos da sua empresa é o seu colaborador!! Preze pela qualidade de vida no trabalho e colha resultados financeiros reais.

Tatiana Pimenta, CEO e fundadora da Vittude. Faz psicoterapia pessoal há 6 anos. Cursando uma formação em Ciência da Felicidade pela Universidade de Berkley, Califórnia. É estudiosa de diversos assuntos relacionados à saúde mental. Tem dedicado atenção especial ao tema da felicidade e à forma como reprogramamos nosso cérebro para ter mais emoções positivas. Possui mais de 15 anos de experiência profissional, tendo atuado em organizações nacionais e multinacionais de grande porte como Votorantim, Cimpor (Cimentos Portugal), Arauco e Hilti do Brasil.

Qualidade de vida no trabalho: investir em saúde mental traz retorno financeiro para sua empresa
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